Ibram
No âmbito das políticas públicas voltadas à valorização, ampliação e qualificação dos acervos museológicos brasileiros, o Instituto Brasileiro de Museus – Ibram apoia o Movimento de Aquisição de Obras para Museus Brasileiros, iniciativa que reafirma o compromisso do Estado brasileiro com a preservação do patrimônio cultural e com a promoção de narrativas mais plurais, inclusivas e historicamente comprometidas. A incorporação de obras ao acervo do Museu da Inconfidência – MIN, em Ouro Preto, Minas Gerais, insere-se nesse horizonte estratégico. Trata-se de uma ação que transcende a dimensão patrimonial, configurando-se como gesto institucional de reconhecimento, reparação histórica e ampliação dos repertórios simbólicos que constituem a memória nacional.
As obras adquiridas — a escultura de São Benedito com o Menino Jesus e a representação do Rei Mago Baltazar — integram um conjunto de excepcional relevância histórica, artística e cultural. Ambas materializam, por meio da imaginária devocional barroca, a presença e o protagonismo de figuras negras no universo da religiosidade cristã, constituindo-se como documentos sensíveis das dinâmicas sociais, culturais e espirituais que atravessaram a formação do Brasil.
No caso de São Benedito, sua representação como santo negro, profundamente enraizada nas irmandades do Rosário e nas práticas devocionais afro-brasileiras, evidencia a construção de identidades e pertencimentos que resistiram às violências do sistema escravocrata. A escultura, ao expressar a ternura e a dimensão mística do encontro entre o santo e o Menino Jesus, reafirma valores de humildade, caridade e dignidade, ao mesmo tempo em que se inscreve como símbolo de resistência e afirmação cultural.
De modo complementar, a imagem de Baltazar, tradicionalmente associada à Epifania, amplia a compreensão da universalidade da mensagem cristã ao incorporar a figura do rei negro como representação da diversidade dos povos. Sua presença no repertório iconográfico barroco evidencia processos de circulação de imagens, saberes e crenças, ao mesmo tempo em que revela a construção simbólica de uma espiritualidade que dialoga com diferentes matrizes culturais.
A entrada dessas obras no acervo do MIN fortalece o papel da instituição como espaço de produção de conhecimento, de revisão crítica da história e de promoção de narrativas que contemplem a complexidade da experiência social brasileira. Ao integrar peças que evocam a presença afrodescendente na formação cultural do país, o museu amplia sua capacidade de abordar temas sensíveis e de contribuir para o enfrentamento dos silenciamentos históricos.
O Movimento de Aquisição de Obras para Museus Brasileiros, ao articular esforços entre instituições públicas, iniciativa privada e sociedade civil, demonstra que a preservação do patrimônio cultural é uma responsabilidade compartilhada. Trata-se de uma ação estruturante que não apenas garante a salvaguarda de bens culturais, mas também promove o acesso democrático, a educação patrimonial e o fortalecimento da cidadania.
Reafirmamos, assim, o compromisso do Ibram com a construção de políticas museológicas que reconheçam a diversidade, promovam a equidade e contribuam para a elaboração crítica da memória nacional, entendendo os museus como espaços vivos, dinâmicos e essenciais à vida democrática.
Fernanda Castro
Presidenta do Instituto Brasileiro de Museus – Ibram
Caixa Residencial
A presença da caixa residencial na composição do acervo do Museu da Inconfidência, referência nacional na preservação da história do país, reafirma um compromisso institucional com a preservação da memória e o fortalecimento da cultura brasileira.
As obras que compõem a Coleção CAIXA Residencial reúnem valores históricos, artísticos e simbólicos fundamentais para a compreensão da formação cultural do país. Esta incorporação ao museu fortalece o acesso democrático à cultura, destacando narrativas essenciais e reconhecendo a diversidade que constitui as identidades nacionais, em especial o protagonismo afrodescendente.
Assim, a CAIXA Residencial contribui para o fortalecimento do patrimônio público e para a ampliação de seus horizontes. A iniciativa reafirma a importância das instituições como espaços de preservação, pesquisa e compartilhamento de saberes, promovendo o encontro entre passado e presente.
Estabelecendo, portanto, uma postura institucional orientada pela responsabilidade cultural e pelo reconhecimento da cultura como bem coletivo e configura um compromisso com a valorização da história, da diversidade e do papel social da cultura.
Rodrigo Valença
Presidente da CAIXA Residencial
Museu da Inconfidência
O MUSEU DA INCONFIDÊNCIA – MIN, unidade sob a gestão do Instituto Brasileiro de Museus – Ibram, é inserido em um território formado pelo trabalho e pela presença de homens e mulheres negros. O nosso edifício-sede, e a própria cidade de Ouro Preto, por exemplo, foram construídos majoritariamente por pessoas negras, cujos saberes, técnicas, práticas culturais e formas de organização social foram fundamentais tanto para a construção material quanto simbólica da antiga Vila Rica. As contribuições desses povos, arrancados de suas terras para as Minas Gerais, não se restringem, no entanto, ao plano físico, elas se estendem à dimensão simbólica, expressas na religiosidade, nas formas de sociabilidade e nas manifestações culturais.
Durante um longo período histórico, as narrativas museológicas tenderam a privilegiar os grandes personagens políticos, a monumentalidade da arte colonial, relegando a presença negra a um lugar secundário, quando não silencioso. É justamente esse desequilíbrio que o MIN tem buscado enfrentar. Nos últimos anos, a instituição vem desenvolvendo ações voltadas à reparação simbólica, à inclusão de novas narrativas e ao resgate da identidade negra em Ouro Preto. Entre essas iniciativas, destaca-se o esforço de revisão curatorial de sua expografia, com atenção às questões raciais, sociais e religiosas; à valorização de acervos e documentos que permitem discutir a escravidão, as irmandades negras, os ofícios e as devoções afro-brasileiras; bem como a construção de parcerias institucionais e comunitárias que aproximam o Museu dos grupos historicamente sub-representados na memória oficial.
Nesse processo, merece destaque o reconhecimento do MIN no âmbito do programa Rota dos Povos Escravizados, da UNESCO, como lugar de memória sensível. Esse reconhecimento confirma a responsabilidade pública do Museu diante das marcas da escravidão e das lutas por memória, dignidade e reparação. Ao assumir essa condição, é reconhecido que nossa missão não se limita à preservação de objetos, mas envolve a interpretação crítica das violências históricas, dos apagamentos e das contribuições fundamentais da população negra para a formação da sociedade brasileira.
Fazendo parte do nosso reposicionamento institucional e sendo inaugurada em 2025, a abertura da Sala Afro-Brasilidades (Coleção Tadeu Bandeira), insere-se como uma ação museológica que busca expandir a presença de narrativas negras no interior da instituição, oferecendo ao público novas possibilidades de leitura sobre o acervo, sobre Ouro Preto e sobre a formação cultural do país. A Sala contribui para deslocar o olhar do visitante para além da história entendida apenas como sucessão de elites, heróis e episódios políticos, transitando para a compreensão de uma história ocultada, na qual religiosidade, ofício, arte e resistência aparecem como dimensões inseparáveis da experiência histórica brasileira.
Entre suas diversas responsabilidades, o Museu deve refletir a história que vai além de seus marcos oficiais, não podendo ser compreendido sem o reconhecimento da população africana e afrodescendente em sua formação. Dessa forma, com o intuito de revisar apagamentos históricos e graças à parceria com o Instituto de Pesquisa e Promoção à Arte e Cultura – IPAC, receber no acervo do Museu da Inconfidência a doação das imagens de São Benedito com o Menino Jesus e do Rei Mago Baltazar e os trabalhos das artistas Jeane Terra e Thaïs Helt, significa incorporar quatro obras de excepcional relevância artística, reafirmando a missão institucional que estamos assumindo nos últimos anos: a de rever criticamente as narrativas, ampliar os sujeitos representados nas exposições e reconhecer a presença negra como dimensão constitutiva da história de Ouro Preto e de Minas Gerais.
É nesse contexto que a aquisição das imagens de São Benedito com o Menino Jesus e do Rei Mago Baltazar adquirem sentido. São Benedito, santo negro enraizado nas devoções populares e nas irmandades do Rosário, permite ao Museu abordar a religiosidade negra como forma de pertencimento e afirmação simbólica em nosso acervo. Sua imagem, conhecida pela ternura do encontro com o Menino Jesus, carrega também a inscrição de um corpo negro santificado no centro da tradição cristã, tensionando hierarquias raciais que definiram a vida colonial e que ainda projetam efeitos no presente.
A representação de Baltazar, por sua vez, amplia esse campo de reflexão ao apresentar o rei negro, e sua presença permitirá discutir a circulação de imagens, crenças e símbolos no mundo atlântico, bem como os modos pelos quais a arte sacra barroca incorporou, traduziu e, por vezes, tensionou a diversidade dos povos. No contexto de um museu situado em Ouro Preto, essa obra irá destacar a presença negra na espiritualidade, dignidade e participação na construção dos imaginários religiosos e culturais.
Os trabalhos de Thaïs Helt e Jeane Terra, por sua vez, são obras contemporâneas que mantêm vivo o diálogo com o passado, reafirmando sua presença no presente de modo renovado. O MIN tem também feito um esforço contínuo de se aproximar do presente sem contudo perder de vista o território e suas memórias, ao mesmo tempo em que constrói a sua própria coleção de arte contemporânea que irá servir de fonte de pesquisa para novos diálogos e perspectivas, ampliando as possibilidades de interpretações históricas.
Ao recebermos essas obras, reafirmamos o compromisso do Museu da Inconfidência com uma unidade museológica crítica e socialmente engajada, fortalecendo a nova política institucional já em curso, assim como também fortalecendo uma rede de parceiros que nos apoiam nessa trajetória. Dessa forma, gostaria de agradecer ao IPAC, à CAIXA Residencial e às artistas Jeane Terra e Thaïs Helt que acreditam em nosso trabalho e compreendem a relevância das mudanças que estamos realizando. Suas incorporações ampliam a capacidade do Museu de tratar temas sensíveis, de qualificar suas ações educativas, de dialogar com pesquisadores, comunidades, artistas, estudantes e visitantes, contribuindo para uma compreensão mais justa da história de Ouro Preto e de Minas Gerais e do Brasil.
Alex Calheiros
Diretor do Museu da Inconfidência/Ouro Preto
IPAC
Há imagens que nunca desapareceram — apenas foram silenciadas.
A incorporação das esculturas de São Benedito com o Menino Jesus e do Rei Mago Baltazar ao acervo do Museu da Inconfidência – MIN não se limita a um gesto de aquisição patrimonial. Trata-se de um movimento curatorial que reposiciona o olhar, desloca narrativas e reinscreve, no centro da história, corpos que durante séculos foram mantidos à margem da representação.
No barroco brasileiro, a presença negra nunca foi ausência — foi presença mediada, tensionada, muitas vezes apropriada. Ainda assim, nessas imagens, há fissuras. São nessas fissuras que emergem São Benedito e Baltazar: não apenas como figuras da devoção, mas como construções visuais de pertencimento, dignidade e reconhecimento.
São Benedito, o santo negro, não é apenas um ícone da humildade franciscana. Sua imagem, profundamente enraizada nas irmandades do Rosário, foi — e continua sendo — um território simbólico de identificação para populações negras no Brasil. O gesto de acolher o Menino Jesus em seus braços, carregado de ternura, desloca hierarquias visuais e espirituais: aqui, o divino repousa sobre um corpo negro.
Baltazar, por sua vez, introduz no imaginário cristão uma dimensão incontornável: a universalidade que só se realiza na diferença. Sua presença como rei negro não é decorativa — é estrutural. Ao representar a África na Epifania, ele afirma, ainda que dentro de um sistema simbólico europeu, a centralidade de outras geografias, outros corpos, outras histórias.
Essas esculturas não são apenas objetos devocionais. São dispositivos de memória. São evidências materiais de que a construção da religiosidade brasileira — e, por extensão, da própria cultura nacional — passa inevitavelmente pela experiência afrodescendente.
O que está em jogo aqui é um gesto de restituição.
Restituir não apenas obras, mas sentidos.
Restituir visibilidade a corpos historicamente invisibilizados.
Restituir complexidade a narrativas simplificadas pela tradição.
Ao integrar esses “santos pretos” ao acervo do Museu da Inconfidência, o que se propõe é uma inflexão: uma história da arte que não se organiza mais a partir da ausência, mas da presença; não a partir do apagamento, mas da emergência.
Essas imagens não pedem contemplação silenciosa.
Elas exigem reconhecimento.
E, sobretudo, permanência.
Daiana Castilho Dias
IPAC Brasília
Prefeitura
Quando o diretor do Museu da Inconfidência- MIN chamou o Moçambique do Alto da Cruz para adentrar o recinto do imponente palácio museal, Alex Calheiros estava, na verdade, convocando toda a cultura de origem africana a ingressar na antiga Casa de Câmara e Cadeia de Vila Rica e tomar o lugar que a História de Ouro Preto, de Minas Gerais e do Brasil ali lhe assegurava, ainda à espera da devida ocupação.
Em decorrência da iniciativa, que anunciou a chegada da Coleção Tadeu Bandeira, mais um ponto relevante é agora alcançado, com a incorporação das imagens de São Benedito com o Menino Jesus e do Rei Mago Baltazar, doadas ao acervo em que as referências afrobrasileiras ganham nova dimensão. Trata-se de mais uma conquista do Movimento de Aquisição de Obras para Museus Brasileiros, vitorioso projeto do Instituto de Pesquisa e Promoção à Arte e Cultura – IPAC, que recentemente entregou ao Inconfidência belo trabalho de “afetocolagem” de Silvana Mendes, reconstruindo fotografias do período da escravidão.
O Museu da Inconfidência já apresenta um São Benedito, que se achava na Sala da Mineração, e um Rei Baltazar, entre as figuras de presépio reunidas na Sala do Aleijadinho. A fatura popular do São Benedito, representativa da onipresença do ícone na produção brasileira e da sua forte devoção, expõe características marcantes da escultura saída da mão do povo. O Rei Baltazar é uma imagem de vestir, que revela a mestria de Antônio Francisco Lisboa nos pequenos formatos e a força impressiva da postura e do olhar de um negro com as características faciais africanas, e não europeizadas, como recorrentemente se verifica na imaginária colonial de fonte erudita.
O Mago que ora se entroniza no Museu tem fartas vestes de gosto oriental e um turbante, à maneira dos Profetas de Congonhas, com duas ínfulas. E exibe a sua real riqueza resplandecente no douramento esgrafitado e na policromia centrada na cor vermelha. Pela dimensão e pelo impacto que provoca no espectador, constitui-se não apenas em significativo exemplar do barroco setecentista, mas traduz a afirmativa imponência do negro reconhecido na majestade que também lhe é própria.
São Benedito, nascido na África, tornou-se frade franciscano em Palermo, Itália, onde morreu em 4 de abril de 1589, dia e mês em que é celebrado com grandes festividades no Brasil. A imagem que passa a ser vista em Ouro Preto tem um movimento primoroso nas vestes e curiosa dobradura no hábito do monge, na altura do joelho, à maneira de um estilema das esculturas do padre Félix Antônio Lisboa, irmão do Aleijadinho. O estofamento e o esgrafito dourados das bordas enobrecem o frade que traz nas mãos o alvo Menino Jesus, atributo indispensável da imagem de São Benedito. Se por um lado era um negro que carregava Jesus e podia ser venerado, a dócil humildade do santo a serviço do Senhor Deus – discriminado em seu convento, trabalhou como cozinheiro – projetar-se-ia como um modelo de obediência. Os devotos, na condição de escravizados a que se achavam submetidos, teriam nele exemplo de entrega e serviço.
Em notável fatura erudita, de origem, por certo, portuguesa, estilo barroco e procedência do Nordeste do Brasil, os dois santos ilustram, à perfeição, a opulência do culto que os africanos e seus descendentes professaram por intermédio dos negros elevados aos altares católicos, como Benedito de Palermo e o Rei Baltazar, além de Efigênia da Núbia e Antônio de Caltagirone, também dito de Noto ou, brasileiramente, Catigeró.
Baltazar, no presépio de Belém, representa a acolhida imediata do Menino Deus pelos povos negros. A sua dignidade de rei, por sobre a de mago ou sábio, sustenta o desejo de liberdade e autodeterminação dos afrobrasileiros. Benedito expressa a bondade e a solicitude diante da discriminação e evidencia que Jesus o reconheceu de modo todo especial. Ambos proclamam, aqui, a presença africana na cultura que nasceu no fundo da bateia e fundiu todas as contribuições no esplendor de sua arte.
Angelo Oswaldo
Prefeito de Ouro Preto – MG
São Benedito com o Menino Jesus
As imagens devocionais de santos negros constituem um relevante patrimônio cultural, histórico, religioso e artístico da América Latina, especialmente do Brasil. Extrapolando a esfera puramente litúrgica, tais exemplares escultóricos operam como vetores de memória e identidade, e mostram-se como testemunhos materiais que explicitam o protagonismo afrodescendente na gênese e na consolidação da religiosidade popular. Entre essas devoções destaca-se São Benedito (1524–1589), conhecido como o Mouro, nascido na Sicília e filho de africanos escravizados.
O religioso da Ordem dos Frades Menores viveu parte de sua vida no convento de Santa Maria dei Gesù, em Palermo, onde, conforme registros hagiográficos, faleceu em 4 de abril de 1589, aos 63 anos, em “pleno odor de santidade”. Embora seu processo oficial de canonização tenha se estendido por 218 anos, sua influência na América Latina foi imediata; reverenciado por sua humildade e caridade, e estreitamente associado às irmandades do Rosário dos Pretos, Benedito tornou-se um dos santos de maior ressonância devocional no Brasil.
Em talha inteira, a escultura em madeira policromada, com 87cm de altura, retrata um homem negro de compleição robusta. A peça, estruturada em cânone de 7,5 cabeças, revela uma estrutura helicoidal suave, acentuada pelo panejamento das vestes que pende em dobras profundas e verticais, conferindo volume e uma notável presença plástica à obra. O conjunto repousa sobre uma peanha oitavada, cujo tratamento pictórico emula o mármore em tons de verde e azul.
De fisionomia serena, o religioso apresenta-se em posição de contrapposto, postura da tradição greco-romana clássica retomada pelo Renascimento, na qual o peso do corpo apoia-se em uma das pernas enquanto a outra permanece relaxada. Essa disposição gera uma assimetria equilibrada que desloca sutilmente o eixo corporal e confere maior naturalidade e dinamismo à figura.
Observa-se a cabeça ligeiramente inclinada à esquerda, com cabelos curtos e crespos representados por pequenos gomos esféricos que conferem textura e realismo à peça. Em outras variantes, o santo pode apresentar a tonsura anelar típica dos franciscanos, tradicionalmente associada à consagração monástica e ao voto de castidade.
O rosto do religioso possui traços bem-definidos, com nariz largo, bochechas proeminentes e lábios carnudos, em uma expressão de profunda ternura, com o olhar dirigido ao menino em seu colo. A carnação dos personagens é executada com esmero: enquanto o tom negro da pele do santo é profundo e apresenta um brilho acetinado, a criança em seu colo exibe tons rosados e naturalistas.
Quanto à indumentária, a escultura traja o típico hábito franciscano capuchinho, composto por uma túnica longa de corte amplo e capa curta com adornos em relevo dourado. O traje, em sóbrio tom marrom-escuro, é cingido à cintura pelo cordão de três nós, símbolo dos votos de pobreza, castidade e obediência e finalizado pelo capucho pontudo integrado à veste na parte traseira. O panejamento exibe um conjunto de dobras e vincos profundos que denotam as tensões e o peso do tecido.
As bordas das vestes são ricamente ornamentadas com motivos fitomórficos, compostos por flores e folhagens douradas que contrastam com a policromia escura do hábito. Tal ornamentação executada na técnica de punção produz um refinado efeito de baixo-relevo. Diferentemente do entalhe, que remove material, a punção marca a superfície, sendo essencial para simular a riqueza de tecidos finos, como brocados e sedas na madeira policromada.
No contexto da técnica do estofado, a peça é totalmente dourada e depois coberta por uma camada de tinta, têmpera ou óleo. Em seguida são criados pequenos pontos, linhas, círculos ou outras marcas que revelam o brilho metálico subjacente, ou criam texturas rugosas que contrastam com as áreas lisas da camada pictórica por meio de pressão ou percussão de objetos pontiagudos. Sob as dobras do barrado, junto à base, os pés descalços reforçam a imagem de humildade e desapego material própria da hagiografia de São Benedito.
O santo sustenta nos braços uma figura infantil, que repousa desnudo sobre um pano de pureza branco. O menino é representado com vivacidade, apresentando um braço estendido e o olhar dirigido ao religioso, gesto que reforça o vínculo de intimidade mística entre ambos.
A escultura, referente ao relato hagiográfico no qual o Menino Jesus teria aparecido a São Benedito, evoca a ternura e a intimidade mística do religioso com o divino. A representação fundamenta-se em duas vertentes simbólicas. A primeira referente aos relatos hagiográficos que descrevem a experiência sobrenatural vivenciada pelo religioso. Testemunhas teriam visto o franciscano em profunda oração, sustentando o Divino Infante em seus braços, motivo que simboliza a pureza espiritual e a graça divina. A segunda interpretação se associa aos milagres operados por sua intercessão, entre os quais se destacam as ressurreições de duas crianças e as curas de cegos e surdos.
Em variante iconográfica bastante comum, o franciscano pode estar representado em posse de um prato, cesta ou toalha com rosas, em alusão direta aos episódios hagiográficos de caridade nos quais a distribuição de pães aos desvalidos culminou na transmutação dos pães e alimentos em flores. Com a ampla propagação dessa narrativa, Benedito passou a ser venerado como o santo padroeiro dos cozinheiros.
Em outro modelo — de influência tipicamente espanhola — é denominado “Milagre do Sangue”, sob a égide da Religio Cordis, religião do coração. Essa vertente iconográfica, menos frequente, apresenta o coração do santo vertendo gotas de sangue, em referência à representação mística das sete virtudes do catolicismo: caridade, temperança, humildade, castidade, diligência, paciência e bondade.
As variantes iconográficas presentes na imaginária de São Benedito transcendem a biografia espiritual para consolidá-lo como referência afro-católica, refletindo adaptações culturais em que os valores de humildade e caridade encontraram eco na formação da identidade religiosa brasileira. Desde o período colonial, sua representação como santo preto tornou-se um potente símbolo de identificação para populações escravizadas e alforriadas, especialmente no âmbito das irmandades do Rosário, transmutando a peça sacra em um instrumento de afirmação da dignidade de corpos historicamente marginalizados.
A preservação de acervos desta tipologia visa especialmente à manutenção de narrativas vivas de resistência, pertencimento e memória coletiva. Em transcendência ao mero tratamento técnico de conservação e restauro dessas peças religiosas e litúrgicas, tal cuidado configura-se como um ato de decolonização, justiça histórica e reparação simbólica.
Fábio Mendes Zarattini
Rei Mago Baltazar
A epifania, termo derivado do grego epipháneia, significa “manifestação” ou “revelação”. No âmbito litúrgico cristão ocidental essa celebração associa-se, sobretudo, ao episódio da visita dos três Reis Magos ao Menino Jesus, narrado no Evangelho de Mateus, no qual sábios vindos do Oriente reconhecem sua natureza divina e lhe oferecem ouro, incenso e mirra (Mt 2,1–12). Venerados pelas igrejas Católica, Ortodoxa, Anglicana e Luterana, esses personagens adquiriram relevância na tradição cristã, especialmente na iconografia da Epifania. As esculturas produzidas em representação desses nobres orientais constituem um patrimônio presente em acervos públicos e privados, permanecendo vivas em diversas tradições, como a celebração do Dia de Reis, comemorada no Brasil em 6 de janeiro.
O texto bíblico não especifica o número dos visitantes nem afirma explicitamente que fossem reis, referindo-se a eles apenas como “magos”. O termo grego magoi, com provável origem persa, designava sábios ligados à observação dos astros e a conhecimentos considerados, na Antiguidade, como esotéricos. Assim, esses personagens não devem ser compreendidos originalmente como monarcas, mas como membros de uma elite intelectual e sacerdotal ou conselheiros régios.
A denominação “Balthasar” desse personagem encontra-se referenciada no Evangelho Armênio da Infância, um manuscrito apócrifo do século VI, traduzido para o latim no século VIII por Beda, o Venerável. Nessa mesma fonte, e em contexto simbólico dos “Reis Magos”, foram identificadas alusões às linhagens bíblicas descendentes de Noé: Melchior, relacionado a Jafé e à Europa; Gaspar, relativo a Sem e à Ásia; e Baltazar, em conexão a Cam e à África. Assim, em busca da expressão da universalidade da revelação, esses personagens tornaram-se representativos dos continentes Europa, Ásia e África, bem como das etnias branca, amarela e negra.
Em perspectiva teológica e iconográfica distinta, a prática cristã consolidou a interpretação dos Magos como analogia das temporalidades e fases humanas. Nesse sistema simbólico, Baltazar se apresenta como o jovem imberbe em pujança vital e a receptividade primordial à fé; Melchior na maturidade, com autoridade e plenitude da experiência empírica; e Gaspar como o ancião de sabedoria transcendente, contemplação e maturação espiritual.
A despeito de sua origem bíblica no Novo Testamento, os “Magos do Oriente” integram plenamente o hagiológio cristão e recebem da Igreja profunda veneração, o que justifica sua presença recorrente nos programas iconográficos da arte sacra. Dentre essas figuras, Baltazar, habitualmente referido como Rei da Arábia, adquiriu especial relevância representativa ao ser retratado como de compleição negra, conferindo à Epifania uma dimensão universalista. Sua caracterização como soberano negro permitiu que sua imagem assumisse um significado fundamental na simbologia da diversidade racial, dialogando diretamente com sociedades marcadas pela presença africana e afro-descendente, especialmente em contextos coloniais.
Em madeira policromada e dourada na técnica de talha inteira, a peça, de cânone de 6,5 cabeças, apresenta-se apoiada em uma peanha plana e sextavada, de tom bege claro na parte superior e marmorizada em azul nas faces laterais. Representa um personagem masculino de pele negra em posição frontal e postura ereta, com o corpo levemente deslocado em ilusão de movimento. A escultura, provavelmente extraviada de seu conjunto original, mede 69 cm de altura por 32 cm de largura e retrata o nobre Baltazar em vestes à moda oriental, típicas das iconografias cristãs medieval e barroca.
Sua carnação é homogênea, em um tom negro escuro e brilhante, presente no rosto, no pescoço e nos membros. A cabeça é coberta por um turbante volumoso ou toucado oriental acrescido de coroa, elementos que enfatizam a procedência de terras distantes e conferem suntuosidade ao personagem. De um broche circular com pedraria, preso na parte traseira do turbante, pendem duas faixas de tecido. Parcialmente encoberto pelos acessórios na cabeça, o cabelo é negro, curto e crespo, rente à nuca. O rosto apresenta traços idealizados, delicados, olhar dirigido à frente e expressão contemplativa.
O personagem traja um gibão com detalhes em tons de preto e vermelho sobre uma túnica curta, de mangas curtas, ornamentada com motivos vegetalistas e arabescos em esgrafito e punção. Essa técnica de ornamentação, recorrente em esculturas policromadas dos séculos XVII e XVIII, consiste na realização de finas incisões na remoção da camada pictórica com lâminas ou objetos pontiagudos, revelando o douramento subjacente, criando detalhes e um efeito de baixo-relevo com brilho metálico. Sobre o gibão e a túnica, um manto amplo envolve o corpo, sendo segurado pela mão direita junto ao peito, em um gesto que evoca reverência e dignidade. A policromia do manto em esgrafito e punção apresenta desenhos fitomórficos em tons de preto, vermelho e dourado. O contraste entre a sobriedade da carnação escura e o estofamento saturado, aliado aos efeitos de movimento criados pelas dobras do caimento das vestes, intensifica a presença plástica da obra.
A mão direita segura uma ponta do tecido do manto, levantando-o levemente. A outra mão se mostra erguida ou preparada para portar uma oferenda, possivelmente um recipiente ou objeto dissociado. Conforme a tradição, Baltazar oferece mirra, símbolo da futura morte e humanidade de Cristo. As pernas estão parcialmente visíveis sob a túnica curta, e o personagem usa botas douradas, de cano longo também decoradas com efeito policromado em esgrafito preto e vermelho, com desenhos fitomórficos e efeitos de punção, reforçando o caráter aristocrático da figura.
Em síntese, a imagem de Baltazar e de outros personagens negros da devoção cristã reflete não apenas uma carga ritualística e funcional, mas, sobretudo, um testemunho visual, cultural e material das complexas relações entre fé, circulação de imagens e construção de identidades no patrimônio artístico global.
Fábio Mendes Zarattini









