Minas Tênis Clube

O Minas Tênis Clube tem a satisfação de receber, na Galeria de Arte do Centro Cultural Unimed-BH Minas, mais um recorte do que as artes visuais mineiras têm de melhor: a produção recente de Thaïs Helt.

Sob curadoria de Marília Panitz, é apresentado um vasto conjunto de obras que expandem os limites da gravura tradicional, linguagem que marca a trajetória da artista mineira. Mais especificamente a partir da litografia, Thaïs investiga novas possibilidades formais e espaciais, transformando papel, pedra, carvão e ouro em caixas-vitrines, relevos, livros-objeto e instalações que convidam o público a uma experiência sensorial e reflexiva.

Organizada em três zonas — Branca, Negra e de Cor — a exposição propõe uma travessia que articula gesto, matéria e memória. São provocações que se originam em paisagens interiores e exteriores, inventadas ou não. As obras, que evocam a tradição da Minas Gerais barroca, permitem que o público participe da criação de narrativas afetivas a partir de objetos e da ressignificação deles.

Ao receber caixa-paisagem, o Centro Cultural Unimed-BH Minas e o Minas Tênis Clube fortalecem seu compromisso com o fomento à arte e à cultura. Na busca por criar um espaço de encontro entre artistas, público e pensamento contemporâneo, nosso objetivo é contribuir para o dinamismo cultural da cidade e para o diálogo permanente entre tradição e inovação nas artes visuais.

Boa visita!

Carlos Henrique Martins Teixeira
Presidente do Minas Tênis Clube

IPAC

A obra de Thaïs Helt se constrói no limiar. Entre o gesto e a matéria, entre a memória e a invenção, entre o plano e o volume. Em caixa-paisagem, o que vemos não é apenas uma reunião de trabalhos recentes, mas a consolidação de uma prática que, ao longo das décadas, expandiu radicalmente os limites da gravura no Brasil.

Com formação e trajetória profundamente vinculadas à litografia — e com papel decisivo na história da Oficina5, espaço fundamental para a experimentação gráfica em Minas Gerais — Thaïs parte da pedra como matriz, mas jamais permanece nela. Seu trabalho tensiona continuamente a ideia de reprodução, multiplicidade e originalidade. A impressão não é fim; é começo. A artista intervém, dobra, recorta, sobrepõe, encapsula. O que era bidimensional ganha corpo. O que era matriz torna-se escultura. O que era suporte passa a ser espaço.

As caixas que estruturam esta mostra operam como dispositivos de pensamento. São vitrines, relicários, arquivos, paisagens em miniatura. Dentro delas, a artista articula fragmentos — papéis impressos, pedras, carvão, ouro, livros — criando sistemas poéticos que evocam tanto o gabinete de curiosidades quanto o altar profano. Há algo de museológico e, ao mesmo tempo, profundamente íntimo nesses arranjos. Cada caixa parece guardar um mundo e, ao mesmo tempo, expor sua própria construção.

Organizada em três zonas — Branca, Negra e de Cor — a exposição propõe uma experiência espacial e sensorial que se aproxima da ideia de travessia. O branco afirma a abstração e o gesto inaugural; o negro evoca a densidade mineral das montanhas mineiras e suas camadas históricas; a cor manifesta a memória reinventada, a narrativa que emerge dos objetos guardados e reencontrados.

Minas Gerais, aqui, não é apenas geografia: é estrutura. Pedra, ouro, carvão — materiais que atravessam a história econômica, colonial e simbólica do país — são reconfigurados em linguagem contemporânea. A artista transforma a litografia, técnica tradicionalmente associada à reprodução, em campo de experimentação escultórica e conceitual. Ao fazê-lo, reinscreve a gravura no debate atual sobre materialidade, memória e arquivo.

Há também uma dimensão performativa no gesto de Thaïs Helt. Seus desenhos, atravessados por traços largos e incisões douradas, sugerem movimento e interrupção — como se a linha dançasse e, subitamente, fosse convocada à consciência por um “X” que a ancora no real. É nesse equilíbrio entre liberdade e contenção que sua obra encontra sua potência.

Ao apresentar caixa-paisagem, o Instituto de Pesquisa e Promoção à Arte e Cultura – IPAC reafirma seu compromisso com práticas artísticas que articulam tradição e experimentação, memória e invenção. A mostra não apenas celebra uma trajetória singular; ela convida o público a habitar essas caixas como quem abre gavetas da própria experiência.

Porque, no fundo, cada paisagem aqui contida é também uma paisagem interior.

Daiana Castilho Dias
Diretora do IPAC Brasília

acasos, achados, destreza e experimentação... a prática da artista

caixas de extraviados-guardados, caixas de inventos, caixas de projeção… paisagemThaïs Helt é uma artista cujas raízes estão assentadas na gravura. Com um longo percurso poético, ela teve uma atuação definidora nos rumos da arte de Minas Gerais (e do Brasil) como criadora e gestora da Oficina5, por onde passaram inúmeros artistas brasileiros, em busca de experimentação no campo da litografia. Thaïs era a maestrina dessa “cozinha” da arte em que se constituiu o trabalho dos mestres impressores.

No seu percurso particular, em seu processo criativo, a artista desde cedo rompeu fronteiras que definiam a prática da imagem impressa. Por um lado, trabalhou o desenho e a pintura não só nas suas pedras-matrizes, como dispõe a técnica deste fazer, mas também no resultado da impressão, ou seja, sobre os papéis impressos de suas tiragens, que se tornavam obras únicas. Ganhou o espaço, primeiro com o relevo nas monotipias, ou nessas obras “para além” da gravura… ou da colagem, ou do desenho… Algo aí foi criando um corpo a partir da planaridade da litografia e ganhando caixas, onde se guardavam seus experimentos com a forma. Artista-coletora, ela também tem sua estante de muitas coleções mínimas, matérias-primas para suas peças… Existe certa mente, em seu trabalho, uma tensão entre a figuração e o abstrato; entre a centralidade da forma e certo apelo aos nossos olhos que requisita uma costura de associações, determinando possíveis constituições de narrativas.

caixas de extraviados-guardados, caixas de inventos, caixas de projeção... paisagem

A mostra caixa-paisagem traça um percurso por trabalhos que Thaïs realizou nesta última década, cuja marca são suas caixas de coleta–relato. Digo isso em um sentido amplo. Elas são caixas vitrines. Sua transparência nos oferece largos-mundos em miniatura. Imagens que embora dentro do espaço restrito, descortinam horizontes (como fazem as caixas, quando abertas). Neste volume delimitado pelas paredes de vidro, a artista compõe suas paisagens – interiores, exteriores, oníricas (abstrações e concretudes).

Organizada em uma semicronologia (na qual muitas licenças são cometidas) a mostra se debruça sobre um período que vai das mais recentes produções até à série Quase um museu de objetos esquecidos – Não precisa me explicar. É por isso que vim até aqui, concluída em 2015.

A exposição é organizada em três zonas (núcleos) que se interpenetram, pautadas pelo tempo e pela predominância da cor em cada experiência.

zona branca

Na poesia, os versos brancos andam ao lado dos versos livres. Juntos, dão -se a liberdade de não rimar e não manter a métrica. Sem limites preestabelecidos, entregam-se aos nossos olhos e ouvidos sem a advertência da regra. No branco do suporte que recebe as letras, as palavras dançam (uma subversão dos poetas modernistas). Operação similar é a que ocorre pelas mãos de Thaïs: sobre a pedra ou o papel, sob a regência do gesto da artista, tudo dança. Instabilidade para olhos que procuram se depositar sobre o já conhecido. Os brancos de Thaïs são talvez sua maior abstração. São a declaração de amor ao seu fazer. Aqui, a base está parcial mente nua e a sobreposição das imagens sobre ela não a esconde. As inscrições que a transformam, também a convidam para dançar.

Marília Panitz, 2026

 

O branco é abstração.

O início do percurso, primeira zona, é marcado pelo branco (da folha de papel, da pedra litográfica), onde se inscreve o universo inventado pela artista. Duas séries se cruzam, contaminam-se, tendo sido produzidas concomitantemente.

Uma delas é composta por parte dos grandes desenhos de Enigma da Fuga, em grafite e folha de ouro — sua dança sobre a superfície branca, subversão do plano que simula o espaço tridimensional pelo gesto que faz as linhas. Thaïs conta que estes são desenhos que falam de uma espera… A espera da cura, do tratamento do corpo, de suas cicatrizes e marcações de alvos (em tinta dourada).

A outra série, longeva, é Ouro Negro (2017-2025), que concentra as obras com base clara (últimos experimentos) nessa zona. Apresentada sob a égide do branco, inicia-se por um conjunto de oito peças que dialoga com os desenhos — porque os gestos se inscrevem sobre a base — nesse caso, as superfícies levemente acinzentadas das pedras litográficas, que nelas abandonam o destino de instrumento e se incor poram à obra. Abrigadas nas caixas de vidro, sustentam o desenho de um fazer apropriado da gravura que povoa suas superfícies externas, tornando-se volumes. Colocadas no centro da sala, as pedras inscritas subvertem sua função. Não mais matrizes para a multiplicação de formas: tornam-se obras únicas de uma grande litógrafa… multiartista.

Na grande caixa-quadro, sobre o papel e a pedra (litográfica), a mesma operação se dá: suas distintas naturezas se encontram para receber as inscrições e as respectivas superfícies criam relevos que se oferecem ao olhar.

Na série de pequenas vitrines de vidro, onde a transparência predo mina, pequenos encaixes entre a pedra recoberta de folha de ouro e o carvão criam um ato escultórico de fino equilíbrio.

A seu lado, caixas-paisagens abstratas nas quais folhas de papel kozo litografado e desenhado são transformadas em volumes quase etéreos, em uma base/horizonte em ouro e carvão. Assim, a gravura expandida leva a história de sua fatura e sustenta sua história de suporte plano transformado em escultura.

O branco aqui é projeção quase onírica.

zona negra

[…] Ela não quer ater-se a limites. Ao revés da condensação das imagens sobre imagens, Thaïs Helt inicia, simultaneamente, o processo de descolamento de cada uma.

[…] Cor, forma, volume, movimento, vida, enigma. Que são essas formas criadas pela artista a partir da miríade de impressões litográficas e, em seguida, extraídas como matéria para uma instalação? Cosmo, caos, negrura, profundezas do universo? 
Nuvarrões, pássaros, tempestades, lavas vulcânicas, “névoa–nada”, nonada? Objetos delicados retirados da origem ou do fim? Todas as respostas terão a sua pertinência, pelo que ao espectador é ludicamente lícito partilhar e procurar no trabalho da artista aquilo que ela própria continuará a perseguir: o sentido da vida gravado a pedra numa folha de papel.

Angelo Oswaldo
(Mostra Ouro Negro, 2021)

 

O negro é a paisagem.

As montanhas de Minas e suas profundezas cintilantes.

Das experiências mais recentes, chega-se à zona negra, com obras que tiveram uma primeira exibição de seu conjunto (ainda em processo, àquela época) em Ouro Preto (2021). A mostra que levava o nome de Ouro Negro é revisitada, nessa zona, com suas caixas em preto (da tinta litográfica, das gravuras negras do ouro e da pedra-carvão) nos oferecendo construções que emulam as paisagens do garimpo. Transcendem os dados históricos: trazem outro tempo, entre o simbólico e o cronológico, que conta a história de uma terra rica em minério e de um horizonte recortado que se desfaz em consequência da espe culação. Tempo que é da artista também, pois é aí que seus pés caminham, sobre tal terra.

As gravuras negras afirmam a prática ancestral incorporada ao fazer da artista, desde o início de seu percurso, como no de muitos de seus pares gravadores, ao longo dos séculos. Mas seus papéis gravados são radicalmente experimentais, amassados, dobrados, plissados (à maneira de um panejamento, pois claramente estamos na ordem do barroco). Sobrepostos em várias camadas, são colagens que ensaiam o espaço tridimensional, já uma declaração de subversão da forma e da técnica.

Os papéis impressos podem surgir, em grande número, transformados em volumes guardados nas caixas-vitrines. Nelas, identificam-se inscrições como marcas brancas na pele escura do papel tingido. Tais volumes depositam-se em cima de uma base (uma sedimentação) de folhas de ouro amarfanhadas (também desfeitas de sua planaridade) … que se acomodam sobre os pedaços de carvão — estes em sua forma natural, emprestada à terra. Quase uma metáfora geológica… ou arqueológica. As quinze peças, organizadas em bloco, provocam no olhar uma alternância entre a observação do conjunto e o mergulho nas características individuais, únicas (embora, em uma apreciação mais rápida e superficial elas pareçam as mesmas. Eis o segredo).

E aqui estão presentes os livros…muitos deles… (estes objetos-quase-fetiches que povoam a exposição e a obra de Thaïs). Às vezes, surgem organizados como em uma prateleira de bibliotecas inventadas, mantendo o tratamento da gravura e da relação pedra-papel-ouro–carvão; em outras, estão abertos oferecendo-se à leitura de suas texturas e segredos — livros que guardam objetos, livros-mistério e, às vezes, são volumes fechados com capas à mostra, travestidas em linha do horizonte.

Há, também, um conjunto que lembra certa pesquisa geológica das montanhas de Minas: as caixas de pedras, onde o valor e o brilho do raro (o ouro escondido na pedra) se apresentam em meio ao solo negro e pedregoso, sempre difícil de acessar.

Na entrada e na saída dessa zona de paisagem, duas grandes instalações de parede (quase a mesma) articulam o fundo dourado com um recobrimento de tule negro (tratado escultoricamente, à maneira dos papéis). São quase nuvens negras… entre sólidas e gasosas. Como não pensar na pintura de Fra Angelico ou em Giotto, especialmente na Cappela Scrovegni?

O negro se espalha na paisagem, marca um lugar no mapa do agora. Materialidade abstraída.

Paisagem.

zona de cor

[…] Todos os nossos guardados, nossas lembranças e recordações, nosso passado, nosso presente e nosso futuro. Tudo aflora diante de nossos olhos. Abrimos gavetas, reviramos caixas. Encontramos o elo perdido.

[…] Passeio pelo Jardim e ali estou eu, resguardado. Nada morto, nada inerte. As narrativas de histórias e acontecimentos são vivas. Elas ecoam em nosso pensamento e viajamos no tempo, não importa qual. É o poço em que caímos: o nosso subconsciente. É nesse momento que nos encontramos com nós mesmos e é ali, dentro daquela caixa de surpresas, daquela caixa de pandora, que passamos a nossa experiência epifânica de realização, no sentido de compreender a essência das coisas e de podermos dizer: I’ve just had an epiphany.

George Helt
(Mostra Códice, 2015)

 

A cor é a manifestação da memória (reinventada).

A terceira zona traz a cor, os objetos reencontrados e ressignificados – das coletas ainda sem objetivo (encontros com objetos) à composição de sentença movediça (tanto para aquela que produziu a obra quanto para o seu olhador). Tais objetos são todos passiveis de reconhecimento como achados da memória (de qualquer um); há uma profusão de combinações objetuais e semânticas. Uma possível história em cada caixa, muitas vidas (re)visitadas. Caixas que têm o estatuto de gavetas abertas e (des)ordenadas em uma nova frase. Variedade de frases que atravessam tempos, instantes e atualizam toda a experiência. Cerca de sessenta caixas da coleção da artista para serem vistas uma a uma, em todos os seus ângulos, ou em conjunto, o que faz com que o conteúdo-obra de uma contamine a outra e a outra, contando outra história. Diferentemente das demais, essa zona traz a concretude dos objetos achados, uma reunião de vestígios, certa emulação surreal. Mas se encontra aí, também, o aspecto da coleção, do testemunho da vivência. Resultado de um desvendar de antigos recipientes, armários e objetos perdidos, tais trabalhos nos fazem lembrar do jogo das associações fortes dos surrealistas e, por outro lado, de certos altares, muitas vezes profanos, da tradição do Brasil profundo. Objetos compostos desenvolvidos em largo tempo, elas formam a série Quase um museu de objetos esquecidos — Não precisa me explicar. É por isso que vim até aqui, exibida pela primeira vez em 2015.

Há uma presença recorrente dos livros, redobrando a aposta no estabelecimento de camadas narrativas passiveis de serem identificadas nessa troca de lembranças entre artista e olhador. Esse é o desafio e a ludicidade da obra. Cada um identifica o “seu” Museu.

As obras da zona de cor são distribuídas em um mobiliário que sugere o das bibliotecas. Ao lado da estante e da mesa que expõem as caixas–memória, desenhos que são a mais recente produção da artista inauguram uma série inédita ainda sem nome. Nestes, o gesto inscrito por Thaïs revela a cor em diálogo com o crayon preto… E as pontuações, o xis da realidade, reaparece. De certa forma, eles criam a circulação entre as zonas, já que a dança das formas fugazes nos desenhos com grafite sobre papel recebe cor. Cores que refletem o universo dos “objetos esquecidos” e encontrados pela poesia. A cor marca a catalogação de passados (lembrados ou inventados por nós. Afinal, memória muitas vezes é ficção).

Abstração. paisagem. memória.

acessibilidade

Audio-guia

1 - Texto Curadoria
2 - Texto IPAC
3 - Zona Branca
4 - Zona de Cor
5 - Zona Negra